O CONSERVADORISMO DE JAIR BOLSONARO

Por Felipe Lima

Bolsonaro e seus apoiadores vêm se colocando como os representantes do conservadorismo no Brasil. Alguns dizem que ele está banalizando o termo conservador e outros dizem que ele passa bem longe disso. Pretendo forçá-los a refletir, não só sobre o conservadorismo presente em Bolsonaro, mas sobre o próprio conservadorismo. Antes de tudo vamos entender o que é ser conservador, da forma mais resumida possível.

A expressão conservadorismo muitas vezes é confundida com uma ideologia, e essa é a primeira falácia a ser esclarecida, pois na verdade o conservadorismo é a negação a qualquer tipo de ideologia. Os conservadores entendem que não pode existir um planejamento social (ideologia) capaz de tornar uma sociedade perfeita, mas que os costumes, as convenções e a continuidade, herdadas de nossos antepassados pela tradição, devem ser conservados como arcabouço de uma sociedade ordeira, e que a tentativa de aplicar tais ideologias trás mais males que bons frutos.

Ser conservador é, acima de tudo, ser prudente. O conservador não se opõe a mudanças, mas é favorável a reformas prudentes e graduais. Por esse motivo o conservador é contra revoluções, pois essas procuram acabar, de maneira abrupta, com a ordem social vigente e substituí-la por uma ideologia ou projeto de poder, acabando por destruí-la, ao invés de reformá-la. 
                                                                                                               A sangrenta Revolução Francesa de 1789.
Por saber que o homem é imperfeito, o conservador crê que não seja possível o homem planejar um modelo de sociedade perfeita, e que aquilo que foi herdado através dos séculos da cultura ocidental, deve ser preservado. Algumas dessas coisas são, o modelo tradicional de família, o direito à vida, liberdade e propriedade e a Fé cristã. O conservador será contra tudo aquilo que considere uma ameaça à ordem social, a uma sociedade saudável. Isso inclui a legalização do comércio de drogas e o aborto, por exemplo.

A maioria dos críticos que afirmam que Jair Bolsonaro não deve ser considerado um conservador, dizem que é porque lhe falta a base filosófica conservadora e o conhecimento em relação aos grandes expoentes do pensamento conservador, como Edmund Burke, Russel Kirk e Roger Scruton. E de fato lhe falta esse conhecimento, que com certeza o faria ser um estadista melhor, mas esse não é um critério imprescindível para que não possa ser chamado de conservador.

Como eu disse antes, o conservador detém uma série de posições e de crenças que geralmente compõem o pensamento conservador, mas isso não significa que deva haver um consenso. Se for pra levar à risca todos os pensamentos dos grandes bastiões do conservadorismo, realmente não haveria como atribuir a Bolsonaro este adjetivo. Uma das críticas dos conservadores é ao que chamam de “movimento das massas”, ou seja, a voz que foi dada ao povo, ao “homem médio”, ao cidadão comum, que lhes faz serem atuantes nas decisões dentro da política. Em outras palavras; a democracia.

Bolsonaro é um homem que trás consigo um movimento de massas. É um homem que, de acordo com ele, pretende preservar as instituições democráticas.  É um homem sem o conhecimento na tradição filosófica conservadora. Um homem que ainda não demonstrou de fato seu liberalismo econômico (inerente ao conservador). Então, deve ou não deve ser chamado de conservador? Na minha visão sim, até certo ponto. Como dito antes, o conservadorismo não é uma cartilha a ser seguida, não existe um “manual do bom conservador”. Em seu livro A Política da Prudência, Russel Kirk diz: “A existência de diversos modos pelos quais os pontos de vista conservadores podem ser expressos é, em si mesmo, uma prova de que o conservadorismo não é uma ideologia fixa”.

Portanto, é normal que um conservador discorde de outro, em um ou outro ponto, ainda mais se esses dois conservadores estiverem separados por décadas. Quando Bolsonaro sai em favor da intervenção militar de 1964, ele não está sendo menos conservador por isso. Pelo contrário, ele entende que aquilo foi necessário naquela determinada ocasião, como uma reação a ameaça revolucionária que surgia. Esse tipo de reação contra algo que ameace a ordem natural da sociedade é o motivo de nós conservadores sermos chamados também de reacionários. Isso não significa dizer que uma intervenção seja necessária na ocasião em que estamos na data desta publicação. É tanto que, apesar de ter apoiado uma há décadas atrás, o próprio Bolsonaro não pretende impor uma nova intervenção agora, pois são contextos diferentes. Ora, isso é próprio do conservador. Ainda em seu A Política da Prudência, Kirk fala: “Quais princípios específicos serão enfatizados pelos conservadores, em cada época, dependerá das circunstâncias e necessidades daquele determinado período.”

Sendo assim, também não é errado dizer que o povo brasileiro é conservador. A maioria das pessoas segue os valores morais cristãos, prefere o modelo tradicional de família e se opõe a adoção de crianças por casais homossexuais, à legalização do comércio de drogas e ao aborto. O fato dessa massa não possuir o conhecimento intelectual sobre o conservadorismo, não quer dizer que não seja conservadora. Ela apenas não possui um determinado conhecimento que a faria se proteger de ideologias, o que explica que, mesmo o brasileiro sendo conservador, acabou por votar no PT quatro vezes seguidas.

Bolsonaro é um conservador genuíno? Não, mas também não deixa de ser conservador! Não precisa “fechar 100%”. Para ser um genuíno, precisaria estar munido desse conhecimento e possuir o máximo das qualidades possíveis que o conservador pode ter. Seus apoiadores são, em geral, menos conservadores ainda, pois formam uma massa de homens médios, não possuem o ceticismo que todo conservador deve possuir, já que depositam demasiada confiança na sua pessoa e muitos até desejam uma intervenção militar. Por fim, eu prefiro, prudentemente, tratá-lo apenas por um homem “de direita”, ainda que chamá-lo de conservador não esteja errado. Enquanto Jair Bolsonaro for prudente, preservar as estruturas tradicionais que sustentam a sociedade, baseadas em valores cristãos, defender uma ordem social, ser cético, realista quanto à imperfectibilidade humana, e for contra todo tipo de ideologia, chamá-lo de conservador não será um erro.

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