GloboNews e Bolsonaro
Por Felipe Lima
Nem um pouco melhor que a desastrosa edição do Roda Viva, o GloboNews aprendeu uma lição com os colegas da outra emissora e resolveu atacar Bolsonaro com outras armas, só que acabaram caindo na mesma armadilha. Com direito a papelão do final do programa.
Nem um pouco melhor que a desastrosa edição do Roda Viva, o GloboNews aprendeu uma lição com os colegas da outra emissora e resolveu atacar Bolsonaro com outras armas, só que acabaram caindo na mesma armadilha. Com direito a papelão do final do programa.
A tática dessa vez foi pressioná-lo contra aquilo que ele menos domina, e que anteriormente havia tido a humildade e sinceridade de admitir: economia.
Bolsonaro assumidamente desconhece muito sobre o tema, apostando todas as suas fichas no notório economista Paulo Guedes, ministro que irá auxiliá-lo num eventual governo. Toda essa confiança em Guedes, justificada pelo excelente currículo do economista, formou uma aliança, ou como o próprio Bolsonaro gosta de falar, um "casamento", que sem dúvida trás crédito à campanha do candidato. Sabendo disso, a estratégia da vez foi atacar esta relação.
Por diversas vezes, o programa tentou colocar as opiniões de ambos umas contra as outras. Num determinado momento mostraram um vídeo de Paulo Guedes criticando o modelo econômico do regime militar, modelo esse notoriamente elogiado por Bolsonaro. Isso, e outras falas do tipo "olha, seu economista pensa o contrário sobre isso" foram recorrentes durante o programa. Poucas coisas estão tão certas e bem encaminhadas no plano de governo de Bolsonaro quanto sua relação com Guedes e o plano econômico dos dois, e essa relação foi constantemente provocada.
Bolsonaro não é nem de longe perfeito, nem é um exímio orador e muito menos tem as respostas prontas como seus adversários. Seu conhecimento é limitado, não só na economia, geralmente dando voltas nas respostas, ou mesmo mudando completamente de assunto, quando perguntado sobre temas específicos. Se os jornalistas vermelhos bem soubessem usar esse ponto fraco, a sua missão de diminuir Bolsonaro seria mais efetiva. Mas eles não se contém e acabam entrando na onda dele, terminando por cair no erro de perguntar sobre as tais polêmicas e aí é ele quem domina. É como levar a luta pro chão e finalizar. É assim que estão o ajudando a se eleger.
Ora, um presidente não precisa de fato dominar todos os assuntos. Um eleitor não conhece o funcionamento da política e nem a legislação, ele deposita sua confiança naqueles deputados e senadores que estão mais alinhados com sua visão e que sabem como funciona o sistema. O presidente faz mais ou menos o mesmo com os seus ministros.
Perguntado sobre quais serão suas medidas para igualar os salários entre gêneros, o candidato respondeu correto, mas não de forma objetiva, talvez por insegurança de como a fala seria repercutida. Bastaria ter dito que quaisquer medidas para igualar os salários demandaria alguma intervenção compulsória nas empresas, e que isso acarretaria em outras consequências negativas, que já são de conhecimento dos economistas.
Continuou mantendo segredo quanto às escolhas dos outros ministérios, acredito que seja uma cautela, sabendo que qualquer anúncio feito por sua boca sobre o seu futuro governo será alvo de complô conspiratório da mídia.
Perguntado se manteria o subsídio no preço do óleo diesel, acordado com os caminhoneiros, deu um passeio. Se dissesse que manteria, iria contra o seu próprio discurso liberal e se dissesse que cortaria poderia perder o apoio dos caminhoneiros que havia conquistado e da maioria da população que apoia a categoria. Por fim colocou a culpa no devido culpado, a Petrobrás e sua política de preços, afirmando até que cogitaria uma privatização. Os jornais não perderam tempo e imediatamente noticiaram como se a privatização fosse uma certeza, sendo que foi apenas uma hipótese sugerida.
Fernando Gabeira ignorou completamente a realidade brasileira das escolas públicas e comparou com a Finlândia, que tem suas próprias necessidades, para questionar o modelo de ensino militar sugerido por Bolsonaro. Gabeira ignorou que na Finlândia provavelmente não existem alunos espancando professores(as), e nem assassinando uns aos outros dentro de sala. Não é falta de disciplina e ordem que falta às escolas da Finlândia, nas daqui sim.
Foi caindo na cilada de falar das polêmicas e da ditadura que o programa protagonizou um dos maiores vexames da televisão nos últimos tempos. Questionado novamente se houve democracia no regime militar, Bolsonaro manteve a palavra e disse que sim, ressaltando sobre as eleições para presidente durante o período.
Bolsonaro não saiu de todo por cima, ele insiste em repetir as mesmas respostas e os entrevistados em fazer as mesmas perguntas, resultando num looping infinito quando se trata de uma nova entrevista do deputado. Contudo, teve humildade em admitir alguns excessos e em reavaliar certas opiniões, bem como admitir que "as pessoas mudam", e mostrou cautela para evitar promessas imprudentes, coisas que dificilmente vemos em outros políticos.
O ponto máximo foi quando o candidato mencionou a declaração do próprio Roberto Marinho, fundador da rede Globo, em apoio a intervenção militar de 1964 que, segundo Marinho, seria para manter o estado democrático contra os revolucionários comunistas. Ali, no meio do vespeiro, Bolsonaro criou uma situação constrangedora para a emissora e para os jornalistas vermelhos, obrigando a mediadora, Míriam Leitão, a psicografar, à la Chico Xavier, uma retratação da emissora sobre o apoio dado aos militares na época, ao final do programa. Essa retratação já havia sido feita anos atrás, após a morte de Marinho, mas a emissora resolveu abrir mão do senso do ridículo para lançá-la ali novamente de forma vexatória. Esse provavelmente foi o maior feito do candidato nesta edição.


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