Conservadorismo, Revolução Cultural e Conivência

Por Dennis Silva

"Por isso alegrai-vos, ó céus, e todos que aí habitais. Mas, ó terra e mar, cuidado! Porque o demônio desceu para vós, cheio de grande ira, sabendo que pouco tempo lhe resta" Apocalipse 12:12

Nos últimos dias temos presenciado um recrudescimento das iniciativas ditas progressistas. O segundo semestre de 2017 ficou marcado por tristes, e algumas vezes repugnantes, imagens, como a do “peladão do MASP” e da indignada Dona Regina. Neste texto procurarei enunciar os fatores que levaram a essa aparente mudança de postura na Guerra Cultural. Teriam os frankfurtianos obtido conhecimento sobre uma iminente catástrofe e esse conhecimento os forçou a acelerar seus planos? Ou o Grão-Mestre Illuminati está para despertar sedento de sangue?

Ironias e teorias da conspiração à parte, pretendo demonstrar que os maiores culpados pelo atual achincalhe que sofre a Moral judaico-cristã são justamente os pretensos Conservadores.

Explico-me: a subversão nos moldes da cartilha gramscista dá-se, necessariamente, com a ocorrência de dois comportamentos da parte daqueles que se opõem à agenda liberal.

O primeiro desses comportamentos envolve uma mecânica que emula a condição de um sapo colocado dentro de uma panela com água fria que depois é posta a ferver. Por fatores fisiológicos que ultrapassam meu escasso conhecimento de Biologia o pobre anfíbio anuro regula sua temperatura interna em função do meio no qual se encontra e não é capaz de perceber a mudança gradativa na temperatura da água senão quando esta já está alcançando o ponto de ebulição, ou seja, nosso amigo coaxante só percebe sua perdição quando essa já é inescapável.

“Mas o que há em comum entre um sapo cozido e os Conservadores brasileiros?” - perguntará um leitor menos perspicaz depois dessa longa metáfora aparentemente estapafúrdia. Ora, respondo eu, tudo! Tudo, caro leitor, porque não podemos acusar os liberais/progressistas de serem burros.

Imagine que nos anos 90 um conhecido lhe dissesse que tem um “relacionamento aberto”.

Naquela época você poderia pensar que esse conhecido mantinha um relacionamento no qual podia conversar qualquer coisa com sua parceira, talvez até elogiar a beleza de outras mulheres ou confessar uma traição sem medo de represálias. Mas a menos que você e/ou seu amigo frequentassem os mais devassos círculos (e aqui me refiro à coisas ao estilo Os 120 Dias de Sodoma) jamais te passaria pela cabeça que com “relacionamento aberto” seu conhecido se referisse a um acordo onde ambos podem se relacionar com outras pessoas, muitas vezes formando o que hoje se chama de relacionamento poliamoroso. Ainda mais impensável seria a imagem de um marido cozinhando o jantar alegremente e publicando na Internet, para conhecimento de amigos e familiares, que no quarto ao lado sua esposa satisfaz a luxúria com dois ou três conhecidos (ou mesmo com estranhos). Hoje essa situação é considerada tão banal que possui até uma denominação: cuckold.

Como isso aconteceu? Como, no intervalo de uma geração, algo que costumava ser no mínimo constrangedor tornou-se aceito, incentivado e, muitas vezes, motivo de orgulho?

É justamente aí que entra nossa sopa de sapo. Claro que ninguém simplesmente chegou e disse “você deve permitir que sua esposa/namorada vá pra cama com quem ela quiser e com quantas pessoas ela quiser, mesmo que simultaneamente. Você deve ficar feliz pelo apetite sexual ‘insaciável’ da sua companheira e orgulhoso por várias pessoas a desejarem. Se você não fizer isso é um porco machista, fascista, que pensa que é dono da outra pessoa.” É óbvio

que essas palavras, naqueles tempos, renderiam, quando muito, meia dúzia de xingamentos ou uma sova. Mas eu já disse que esses caras não são burros. Tudo isso começou lá atrás e, da mesma forma que a temperatura da água do sapo, progrediu de maneira gradual e quase imperceptível.

Primeiro trabalhou-se a extinção dos chamados preconceitos burgueses, como honra, virtude e fidelidade; relacionados à extinção do “crime de honra”. Depois extinguiu-se as ideias de perenidade e unicidade do matrimônio com a implantação do desquite e do divórcio. Então retirou-se o aspecto de sacralidade do casamento ao eliminar a necessidade da cerimônia religiosa para o reconhecimento da união.

Percebe o leitor para onde fomos paulatinamente conduzidos? Temos agora o conceito de um relacionamento que é apenas um contrato firmado entre duas pessoas e reconhecido pelo Estado; neste contrato não há cláusulas que exijam “dedicação exclusiva”, vitaliciedade do acordo ou respeito mútuo. Tudo o que sobrou é uma relação onde cada parte exige a satisfação de seus próprios desejos e está pronta a rescindir o acordo assim que não mais enxergar vantagens na sua manutenção. Junte-se a isso um discurso de “libertação da mulher” através de sua escravização aos instintos sexuais mais animalescos e a quase criminalização das pessoas que ainda valorizam a virtude e temos a fórmula do cuckold.

Certo, mas onde está a culpa dos Conservadores nessa história?

Nossa culpa reside, em primeiro lugar, no fato de não nos termos oposto com a necessária veemência a cada uma dessas etapas. Seja por miopia, seja por comodismo nós aceitamos esses golpes e na maioria das vezes aceitamos calados. Só nos manifestamos, mal e porcamente, quando já não havia sequer uma base para nossa argumentação (veja o leitor o caso das marchas contra o divórcio). E assim, finalmente, está demonstrada a nossa identificação com o sapo cozido. Para usar um anglicanismo poderia dizer que o que fizemos foi “too little, too late”.

O segundo fator que nos acusa aqui (e que é a outra das condições necessárias ao avanço progressista) é a adoção por parte dos Conservadores das atitudes antes repudiadas. Pense o amigo em quantos “coxinhas” conhece que se divorciaram, que defendem a assim chamada liberdade sexual ou que acham a ideia de castidade uma “caretice de beatas”.

Porém este aspecto será assunto da continuação desta humilde análise.

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